Chá do Teo: Trindade

Postado por em mar 30, 2015 em Blog | 13 Comentários

Chá do Teo: Trindade

Quantas vezes você já parou para pensar na Trindade? Certamente alguma vez você se fez essa pergunta, aí questionou alguém que você julgava saber mais que você, e achou tão complexo o assunto e talvez tão “irrelevante” para sua Fé, que logo abandonou o interesse. Talvez, para não ficar solto na sua mente, adotou algum sistema ou alguma analogia para quando perguntado usá-la, mas nada além disso.

Não sou muito inclinado ao uso de modelos ou analogias que expliquem a Trindade. Por muitos anos usei e pensei em diversos sistemas que simplificavam a explicação e me davam algum conforto para crer em algo tão absurdamente maravilhoso. Ainda que exista uma boa intenção nessas reduções para se explicar a Trindade, creio que todas elas apresentam elementos que podem confundir as três pessoas ou mesmo separá-las de forma a destruir esta unidade. Minhas concepções a respeito de como entender e explicar a Trindade mudaram quando em um congresso de teologia ouvi um respeitado teólogo perguntar a plateia quantos ali entendiam a Trindade, muitos levantaram as mãos (inclusive eu), e como resposta recebemos: “– depois desta reunião gostaria muito de conversar com cada um de vocês, pois eu ainda não entendo a Trindade. Eu creio nela, mas não a entendo”.

Meu objetivo com esta série de estudos que começamos hoje não é apresentar uma visão complexa e dispersa das doutrinas fundamentais do cristianismo, mas de forma simples e sem ser superficial, dar suporte a quem se interessar a aprofundar os seus estudos bíblicos sem o medo de encontrar no caminho um labirinto de onde não pode sair. A Palavra Deus é de uma clareza espetacular, seus textos foram inspirados por um ser espiritual e de mente inalcançável, mas foi escrito por pessoas simples, muitos deles sem nenhum grau de instrução formal e que recorreram a outros para que suas palavras pudessem ser escritas. A Bíblia não é um enigma, a Bíblia é o texto mais claro já concebido, nenhum tutorial na internet é tão claro, tão objetivo e perfeito quanto as Escrituras Sagradas.

No entanto, é o Espírito Santo (uma das três pessoas da Trindade) que nos capacita a entender a espetacular Palavra de Deus (outra pessoa da Trindade) e a partir Dela compreender o sacrifício realizado na Cruz por Cristo (uma outra pessoa da Trindade). Necessitamos desesperadamente Dele para compreendermos a Sua Palavra.

No Novo Testamento, temos claramente apresentadas as três pessoas da Trindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são retratados de forma fiel como sendo: Co-Eternos e Co-Iguais. Eternos por que desde o princípio eles existem (Gênesis 1.1-2 e João 1.1-3 – Aconselho que durante a leitura você interrompa e leia estes textos, acredite na Palavra de Deus, não apenas no que eu escrevo. Use uma Bíblia on-line para facilitar). Eles também são iguais, mas não os mesmos. Veja, se você for a uma loja poderá comprar uma TV de LED fabricada por uma empresa e seu vizinho também poderá comprar uma TV de LED fabricada pela mesma empresa, elas são iguais, mas não são as mesmas. Logo, “iguais” não é sinônimo de “mesma”.

Durante muito tempo, e ainda hoje, várias correntes doutrinárias tentaram explicar a Trindade, muitas deles incorrendo em erros teológicos graves (heresias), que em algum ponto colocavam-se contrários aos ensinamentos bíblicos. Como o “Modalismo” ou “Sabelianismo”, que reduziu a Trindade a um único Deus que hora se apresenta com Pai, ora como Filho, ora como Espírito Santo. Uma das explicações comuns a se ver na Trindade, ainda hoje, é da analogia com a água. Dizemos que a água pode se apresentar em três formas: sólida, líquida ou gasosa. Isso é verdade. Apesar das três formas distintas, é sempre água. Mas isso não é Trindade e é uma heresia. Pois Deus não se apresenta de três formas. Ele é Pai, mas não é o Filho, tampouco é o Espírito Santo. Ele não muda sua forma para cumprir uma função diferente, ele não pode ser comparado a água em diferentes estados, porque ele apesar de Ser Deus Pai, nunca será, Deus Filho. (Esse exemplo é apenas para demonstrar como nossas explicações, por mais bem intencionadas que sejam, podem ser extremamente perigosas).

Apesar de ser uma doutrina melhor compreendida a partir do Novo Testamento, já na Criação Deus apresenta-se por vezes utilizando a primeira pessoa do plural Nós: “façamos o homem a nossa imagem e semelhança…” (Gênesis 1.26) assim como Único: “… nosso Deus, é o Único Senhor” (Deuteronômio 6.4).

Assim temos que: Deus é Pai. O Criador que governa o universo e é Pai Espiritual de todos os que são justificados em Seu Filho. Cristo é o Filho, Ele é chamado de “Deus Forte e Pai da Eternidade” (Isaías 9.6), de “O Verbo que é Deus” (João 1.1) e de “Eu Sou” (João 8.58), mesmo atributo de Deus (Êxodo 3.14). Por fim, o Espírito Santo, recebe os mesmos atributos de Onisciência (1 Coríntios 2.11) e Onipresença (Salmos 139.7), entre outros.

A Bíblia então apresenta Jesus Cristo como sendo Deus mas em um relacionamento de Filho para com Pai. Eles são a mesma substância, compartilham a mesma inteligência, pensar, poder e atributos, a relação entre os dois é eterna e não existe uma relação de subordinação ou superioridade. O Espírito Santo é a terceira pessoa da Trindade. Ele procede do Pai e do Filho simultaneamente. Mas não é inferior a nenhum deles, mas igual. A distinção entre eles é feita de forma funcional e subordinada as outras pessoas apenas em realizações específicas.

Como isso se explica?

O Filho (Cristo) submeteu-se ao Pai (Deus) para ser enviado ao mundo para morrer pelos homens (1 João 4.14) e obedece ao Pai até a morte de Cruz (Filipenses 2.8). O Espírito Santo, submete-se ao Filho para glorificá-lo levando homens ao arrependimento e conversão (João 16.14). Deus perdoa o homem justificando-o na obra de Cristo (Romanos 8.33). Assim, apesar de terem funções diferentes, possuem a mesma essência.

Por fim, temos que ter claramente uma coisa. A Trindade (termo que inclusive não encontramos na Bíblia) representa uma síntese de tudo que encontramos na Bíblia a respeito do Pai do Filho e do Espírito Santo. Ela está além da nossa razão humana de entendimento pleno, mas não contraria a nossa razão. O teólogo Don Green explica que pensar que “três pessoas é uma pessoa” seria um erro e uma irracionalidade, no entanto, pensar que “três pessoas é um Deus”, não contraria nossa razão, nem tampouco contraria a Palavra que cremos e onde depositamos nossa inteira confiança. Portanto, creiamos na Trindade, não como um sistema ou modelo a ser decorado, mas como uma doutrina a ser por toda uma vida compreendida, pois é a expressão exata de nosso Deus.

Sobre Daniel Clós Cesar

Casado e quase pai, sou formado em História e em Teologia, mas não me considero nem historiador nem teólogo, mas sou um leitor compulsivo de teologia, história e quadrinhos, também sou ilustrador nível super-hiper-básico (um chimpanzé cego tem mais habilidades).

  • Do clássico: só existe um Deus, que na verdade é três pessoas distintas, mas é só um tá, que é três, que é um, três, um, três, dezessete, vinte e seis, sete, quatro.

    • Matheus DalPrá

      Cara, a resposta só pode ser 42.

  • Trindade é uma das melhores loucuras para se pensar e o pessoal que pensa que não é tão importante é por causa da ignorância no assunto, não os julgo, só estão perdendo sobre pensar o motivo da sua fé. Os símbolos são importante para mostrar certos aspectos da união do Pessoal-Lá-De-Cima, se a pessoa gosta de pensar mesmo e não se contenta com resposta simplistas, acho bom usar vários destes símbolos para ter uma visão abrangente de cada parte desta grande relação dos Três. Mas quando se vê que a viagem tá muito doida, mas do que se pode suportar é interessante ir na Bíblia e pensar na atuação de Deus na nossa vida e na dos outros e em tudo a nossa volta e ver como ela funciona/funciona na prática. Um jeito e até bem completo (na medida do possível, claro) é imaginar três amigos que sabem um filme, jogo, série ou livro, abrem mão da sua vez de falar para poder ouvir o outro falar, mesmo sendo algo que ele já sabia. Claro o “problema da Trindade” é que sempre queremos achar um momento em que os Três falaram “Tá beleza, pessoal, o negócio de os 3 serem Deus por completo tá bom, mas vamos parar e virar Pai, Filho e Espírito Santo”, ou seja pensamos em começo, meio e fim. E estamos na tentativa de entender que Era, É e Há de Vir, (e sempre foi e sempre será).

    • Daniel Clós Cesar

      Felipe
      Fraga, hum… se entendi bem você é favorável ao uso de modelos ou
      símbolos para explicar a Trindade. Ok, isso é bem comum na igreja,
      fiz uma crítica porque entendo que eles todos são falhos. Vamos a
      seu exemplo dos “três amigos” que você acredita ser “bem
      completo”. 1º. Ao propor a figura de três amigos você
      conceitualmente distorce o primeiro atributo da Trindade. Eles são
      um. Ao afirmar que são três amigos passamos um conceito humano de
      três pessoas distintas que são separadas. A Trindade são três
      pessoas distintas que são um. 2º “problema da Trindade”,
      se entendi bem você entende que há um momento em que “eles”
      viram a “Trindade” (Pai, Filho e Espírito Santo) – “Tá beleza, pessoal, o negócio de os 3 serem Deus por completo tá bom, mas vamos parar e virar Pai, Filho e Espírito Santo”, bem, se
      for isto (não estou dizendo que é, não entendi bem essa parte),
      você está próximo a teoria do Modalismo, que apresenta Deus como
      sendo capaz de “aparecer” em diferentes formas conforme o
      contexto e a necessidade. Bem, isso é considerado pela Teologia
      Cristã uma heresia já alguns séculos atrás, pois fere o atributo
      de individualidade das pessoas da Trindade. 3º “imaginar três
      amigos que sabem um filme, jogo, série ou livro, abrem mão da sua
      vez de falar para poder ouvir o outro falar, mesmo sendo algo que ele
      já sabia.” A Trindade não se trata de uma relação de
      companheirismo ou amizade, mas de íntima relação. Veja, Cristo ao explicar o
      casamento diz: “E serão uma só carne (Marcos 10.8)”, no
      entanto mesmo o casamento não serviria para explicar a Trindade,
      pois eu e minha esposa somos diferentes em tudo, pensamos diferente,
      desejamos coisas diferentes, e ainda que eu e la tenhamos os mesmos
      conhecimentos e o respeito em ouvir o outro mesmo já conhecendo a
      história, isso não nos tornaria um como o Pai é um com o Filho
      (ainda que Cristo tenha feito essa mesma relação). Entenda, sua
      explicação é “boa”, como tantas outras, mas ela não é
      completa e, aprofundando a análise, ela cai no erro de todas as
      outras, e aí mora o perigo. Acredito por fim, que “símbolos”,
      ao contrário do que você pensa, não tornam a “visão
      abrangente”, mas restrita a conceitos falhos que nos temos e com
      que tentamos explicar aquilo que é Perfeito é inexplicável a mente
      a humana. Na prática a Trindade ensina apenas uma coisa a igreja: “a
      Trindade é um chamado ao serviço. Estudamos sobre a absoluta
      igualdade essencial da Trindade. Nesse sentido não há qualquer grau
      de subordinação entre as pessoas da Trindade. Mas percebemos que
      nas obras externas, ao trabalhar na Criação e na Redenção, as
      pessoas da Trindade se subordinam umas às outras e trabalham em
      perfeita cooperação. Embora sejam pessoas plenas, e cada uma tenha
      a essência completa da Trindade em si, não são, nem desejam ser
      autônomas. São absolutamente livres e isso faz com que se
      relacionem e promovam a obediência. O Filho faz questão de obedecer
      ao Pai, e o Espírito é obediente ao Filho.” (Leandro Lima).
      Logo, Trindade não está ligado ao fato de os “três amigos”
      conviverem juntos, mas de cooperarem um com o outro. 🙂

      • Leo, Leo estou a tanto tempo convosco e tu dizer: mostras-me o Pai. Essa minha primeira frase foi só uma inversão fazendo uma piada com o discípulo com meu quase meu nome. Você concordou comigo, só quem sem saber hehe. Acredito que meu comentário, o primeiro, não ficou tão claro, sem problemas vou trazer um pouco de luz sobre ele. Eu não falei sobre os pontos que você comentou pois achei que já eram óbvios, acredito também que todos os modelos que você falou diminuem Deus de alguma forma, por isso são heresias pois quebram com a base na fé no Infinito e também no sem principio. O que usei no texto foram exemplos. Só faltou eu falar que a Trindade é semelhante, cairia melhor. Eu sei muito bem que eles sempre foram um, pois como ambos os três são Deus eles sempre foram a Trindade, não teve um momento que não foram, até porque convenhamos que não tem lógica existirem 3 Deus(es) Infinitos, pois isso fere a ideia da concepção de Deus. Eu sou uma pessoa muito imaginativa e gosto de explicar as coisas de forma fáceis para as pessoas eu acredito que cada símbolo ajuda na compreensão de um todo, vamos comparar novamente, Jesus compara seus a animais recomendado que sejam simples como as pombas e prudentes como a serpentes. Ou seja ele pegou emprestado atributos dos próprios animais para ensiná-los. Claro que Deus tem atributos que são só dEle, o que torna Deus e não uma criatura ou criação que teve principio, meio e fim. Pois “dele, por ele, para Ele, são todas as coisas” a questão que uso são os atributos comunicados de Deus na natureza humana. Pois estes elementos que são SÓ DE DEUS são SÓ DE DEUS e a pessoa precisa de ter fé para acreditá-los pois o pecado afetou-nos tanto que não conseguimos naturalmente tratar Deus como ele é digno de ser tratado. Resumindo, uso estas comparações para levar a pessoa a pensar no atributos que só Deus tem. Exemplo, se eu falo que Deus é um “conjunto de amigos que são dão bem” isso pode soar vulgar para você, e até para mim e para Deus, pois conhecemos como ele é Santo, e diferente de qualquer uma de suas criaturas, mas para alguém que não tem conhecimento e aparentemente está perdido no mundo ela vai se parar e perguntar “como dentro de Deus não a briga, mesmo o Pai, o Filho e o Espírito Santo serem amigos, pois amigos sempre brigam?” O que eles tem de tão especial de todos os outros amigos que já brigaram uma vez na vida?” Vê ai, toda amizade sofre problemas porque as pessoas pensam diferente, ou quando concordam pensavam diferente, e correm o risco de discordar, eu não vou levar a resposta final a pessoa, mas tento com a ajuda do Conselheiro levar a pessoa ao caminho certo, claro que se fosse jogar esse argumento sozinho não produz nada, mas como creio na ação do Espírito Santo na mente e na sua transformação do ser humano, acredito que não levantando questões que confrontem as ideias que a pessoa já tem é uma boa. Desculpa, coloquei resumindo e não resumi hehehe. Até mais Daniel, falei demais hehe

        • Daniel Clós Cesar

          Brô, certamente quando explicamos a Trindade para um neófito ou não convertido, acabamos por fazer usos de “simbologia” para facilitar. E não vejo um “grande” problema nisso. Mas sim, vejo um grande problema quando, depois de já termos começado a caminhada e já estarmos com um firme propósito e compromisso com Cristo, ainda mantermos ideias superficiais sobre a Trindade, ou outros pontos “difíceis”, apenas por acharmos que eles não são importantes. 🙂 Soli Deo Gloria

          • Ah sim, então concordamos nisso, Deus não é limitado em nenhum sistema que conhecemos. E termos que ter isso em mente. Pois se nós conseguimos saber tudo sobre Ele em sua plenitude, ele seria no máximo um deus, e não o Deus de tudo que existe.