Namoro cristão que vai além do desejo sexual

Postado por em set 14, 2016 em Blog | Sem Comentários

Namoro cristão que vai além do desejo sexual

Sempre tive dificuldades de entender o relacionamento côrte, e a atitude de escolher esperar. Talvez porque a maioria das pessoas que conheço e que tomaram esta atitude não conseguiram me mostrar nada além de discursos legalistas e máscaras religiosas, sendo que o amor, o principal, não se fazia presente nestes atos.

Tive dificuldades, pois eu, um jovem que se converteu aos 20 anos, vindo da transição de uma adolescência de descobertas, sei das renúncias que devo ter a cada dia por entender que o Seu amor e Sua dependência é muito mais profundo que um dia já tivesse imaginado.

Dia destes, navegando no Facebook, fui apresentado a página da igreja República. Formada por uma galera de Curitiba, um dos seus Textões me chamou a atenção, por trazer as questões de um relacionamento cristão de uma forma que vai além da esfera sexual, através de camadas mais profundas, como a própria autora cita. Muito mais humana, relacional, social e de comprometimento com o Evangelho, na minha opinião.

“Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que é que vocês, então, como se ainda pertencessem a ele, se submetem a regras:
“Não manuseie! ” “Não prove! ” “Não toque! “?
Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos.
Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne.” – Colossenses 2:20-23 (NVI)

Recomento a página e a leitura. Fiquem com Deus.

“Namoro cristão que vai além do desejo sexual

Eu era militante da côrte. Militante mesmo. Existe em mim um apego pela luta, pelo revolucionário, pelo intenso. Nas coisas “de igreja” (que eu insistia serem “as coisas de Deus”, mas aí essa diferença é papo pra outra ocasião) então, também foi sempre assim. Tive duas experiências com a côrte que foram tremendamente bem sucedidas: os relacionamentos acabaram. Deus seja louvado.

Detalhes à parte, a côrte me ajudou muito na minha adolescência. Por causa da côrte, eu não fiquei com alguns meninos que poderia ter ficado, não me relacionei mais profundamente com outros quando sabia que não iria dar em nada, esse tipo de coisa. A côrte me deu regras, limites, e por ser adolescente, isso me deu uma santa ajuda em várias coisas, mas havia um problema instalado: eu olhava para todos os namoros de cristãos que não faziam côrte, como um bilhete só de ida pro fracasso, como se aquele relacionamento estivesse marcado pra dar errado, tendo em vista que os irmãos ali não haviam imposto pra si mesmos um padrão de (saca só) santidade tão rigoroso e cheio de regras quanto o meu esquema.

Depois de um tempo refletindo sobre isso, entendi que o meu pecado de soberba, crendo que eu era mais espiritual e aceita por Deus por causa do meu legalismo, já furava todo meu esquema de santidade inventada.

Desisti, joguei pra cima e deixei Deus pegar. Confesso inclusive que foi um alívio pensar que eu poderia beijar meu futuro esposo antes do nosso casamento, porque a côrte sempre foi isso pra mim: um conjunto de regras e um fardo, um fardo bastante pesado.

Existem vários ministérios nos nossos dias pregando pureza sexual. Vários. Dentro da estrutura da igreja também temos uma série de ensinamentos que são transmitidos a respeito de como os nossos adolescentes e jovens podem/devem se relacionar romanticamente. E isso é muito bom. Precisamos mesmo discipular nossos adolescentes e jovens a respeito dos limites bíblicos para os relacionamentos dentro do que agrada ao Pai, mas nós precisamos levar a discussão para além do cuidado com os limites sexuais dos casais.

O comportamento do cristão na vida cotidiana está relacionado a diversas questões que não giram em torno da sua abstinência sexual (para os solteiros) ou da sua vida sexual ativa (para os casados, glória a Deus Pai todo poderoso). Existem as amizades, existe a família nuclear, as discussões filosóficas, a política, o trabalho. Existe a forma como eu, cristã, vejo o mundo, interajo. Existe o meu ego, minha situação psíquica, as compras no supermercado, minha planilha de controle financeiro, minha necessidade de ouvir e ser ouvida, amar e ser amada. E existe, claro e graças a Deus, o desejo sexual. Porque nessas veias aqui não corre santa ceia, corre sangue mesmo. O namoro não foge disso.

Namorar é abrir a porta para que o outro conheça a sua individualidade. Começar a compartilhar a vida através do namoro envolve muita dor, abnegação, confiança, entrega, alegrias, e diversas outras coisas que a estrutura da igreja não tem nos preparado pra viver. Precisamos entender que quando dois cristãos decidem se unir para caminhar para o casamento, enfrentarão uma série de batalhas muito sérias, sendo que uma delas é a tensão sexual, mas nem de longe é a única — e eu diria que nem é a mais importante.

Uma das questões que eu poderia apontar aqui, para ilustrar uma dessas batalhas, é a forma como entrar na vida do outro pode ser perigoso para nossa individualidade, por exemplo. Precisamos ceder, mas sem que uma das partes seja anulada. É preciso assumir as próprias falhas, sem engolir sapos que na verdade são do outro, é preciso aprender a ter conversas difíceis, e aprender o momento de falar ou calar. É necessário tanta sabedoria para namorar, que chega a ser absurdo colocarmos o foco de forma tão incisiva no que é físico, sendo que um casal realmente cristão que acaba caindo em pecado sexual só está gritando por ajuda, porque quando falta intimidade no coração, queremos repor essa intimidade da forma mais óbvia (e se for prazerosa então, é por aí mesmo que vamos seguir). Isso não significa que eles são coitadinhos e que devemos passar a mão na cabeça desse casal que peca deliberadamente, mas significa que o pecado tem uma razão para estar acontecendo. Explica, mas não justifica. Todo pecado tem um caminho. Nenhum casal que está seriamente comprometido com o Evangelho e compartilhando de um namoro realmente saudável vai acabar transando de uma hora pra outra, sem que outros pecados tenham acontecido antes dele.

Estamos focando em ensinar o pessoal a cumprir regras e vigiar um comportamento, quando o perigo real mora em camadas muito mais profundas.

O caminho para o altar é muito mais do que “segurar as pontas” do seu desejo sexual. A vida em si, é muito mais do que administrar nossos desejos. E se a questão gira demais em torno disso, aí não é sobre namoro que precisamos conversar, e sim sobre vício sexual. Mas isso fica pra outro momento.”

Ana Luiza Rei (postado originalmente no Facebook)

Leia também: Eu não escolhi esperar

Sobre Marlon Vieira

Marketeiro que brinca de desenhar, bem humorado, amante de um pôr do sol, odeia rotinas e que adora conhecer novas pessoas. Sonho com um mundo melhor e aprendi que com Cristo eu sou capaz de fazê-lo.