Dificologia: Prosperidade?

Postado por em mar 19, 2015 em Blog | 8 Comentários

Dificologia: Prosperidade?

Olá. Hoje vou dar início a mais uma das subseções da minha coluna, a dificologia. A palavra vem do português mesmo, da junção de difícil + teologia. Ok, pode parecer um pouco patético ou engraçado. O importante é que esses textos tratarão de alguns assuntos teológicos polêmicos. Um deles, o primeiro, é sobre a prosperidade financeira. No título, deixei apenas o primeiro termo, pois é o que comumente usamos e ouvimos nas igrejas.

A prosperidade financeira é uma busca capitalista. Somos incentivados a sermos prósperos pela sociedade, família, amigos e, é claro, pela igreja. É claro?

Eu “nasci” em uma igreja com ensinamentos de prosperidade. Lá, tínhamos até o tal do culto da prosperidade. Era um dia dedicado a ensinamentos sobre prosperidade financeira. Pra ser sincero, nunca fui a esses cultos. Nas poucas vezes em que eu participei daqueles encontros, foi porque estava na escala para tocar ou algo assim. Sempre achei esquisito aquele tipo de reunião e nunca fui muito a favor. No entanto, eu até via pessoas dando testemunhos e as coisas podiam parecer fazer algum sentido. Até que eu me dei conta, lendo um pouco da Palavra de Deus, que algo estava errado.

Nessas igrejas, onde é pregado o tal do evangelho da prosperidade  – ou teologia da prosperidade -, geralmente há uma confusão enorme na contextualização e interpretação bíblica. Veja bem, há textos do Antigo Testamento que estão lá para serem deixados lá! Já vi pregadores falando das maldições da Lei ou de textos não-proféticos, aplicando-os para os nossos dias. Embora eu deva ter cuidado com minha afirmação, há certas doutrinas da antiga aliança que não se aplicam à nova. Alguns pontos, como exemplos e a forma como Deus agia, ainda possuem certa validade para nós, mas muito ficou para trás. Do contrário, teríamos de cumprir a Lei em sua totalidade para nossa propiciação. Ok, isso é tema para outro texto.

Se analisarmos as histórias de Abraão, Isaque, Jacó, José, Davi, Salomão, Jó, é claro que iremos concluir: sim, Deus quer a prosperidade financeira do seu povo. Da mesma forma, poderíamos concluir, sem erro, que Deus quer que tenhamos dezenas de esposas, que sejamos circuncidados, que usemos de força bélica para destruir nossos inimigos e que voltemos às práticas da Lei! Não há meio termo; ou é tudo ou nada. Os pais da fé foram prósperos, sim, em um contexto, uma aliança e uma vontade divina.

No entanto, vivemos em uma nova aliança. Quando Cristo morreu na cruz, Ele rasgou o véu e nos deu direto acesso ao Pai. Nesse momento, após Sua ascensão, passamos a ter o próprio Espírito Santo em nós. Se cremos que isso de fato aconteceu, temos de crer nos Evangelhos e, principalmente, no livro de Atos.

Se eu não estou terrivelmente enganado, Jesus jamais ensinou sobre a prosperidade financeira. Do contrário, Cristo passou Seus dias na Terra ensinando as pessoas a serem humildes e contentes com o que possuem. Vamos analisar rapidamente alguns textos dos Evangelhos.

Acredito que o primeiro passo para entendermos o que Cristo pensa sobre o assunto é a própria tentação que Ele sofreu de Satanás. Quando Jesus foi levado ao deserto e tentado, o próprio Diabo Lhe ofereceu riquezas.

“Depois, o diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor. E lhe disse: “Tudo isto lhe darei, se você se prostrar e me adorar”. Jesus lhe disse: “Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus e só a ele preste culto’”.” – Mateus 4:8-10 (NVI)

Nesse momento, Satanás está claramente tentando o homem Cristo a se deleitar com as riquezas deste mundo. Embora o contexto nos mostre que Jesus negou a adoração, é evidente que o inimigo estava usando algo tentador para enganar a Cristo. Caso as riquezas não fossem tentadoras, não haveria necessidade de termos esse registro nas Escrituras.

No capítulo 6 de Mateus, Jesus dá uma importante lição a respeito das riquezas. Aconselho ler o capítulo todo, pois eu vou focar em apenas três versículos. No primeiro deles, Cristo deixa claro que os tesouros terrenos são facilmente destruídos e não devem ser nosso objetivo principal:

“Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam.” – Mateus 6:19 (NVI)

Jesus passa o capítulo inteiro falando dos cuidados desta vida, da forma como devemos nos portar diante dos bens materiais e das preocupações diárias. Ele duramente adverte que devemos ter cuidado com esse senhor, que é o dinheiro:

“Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro.” – Mateus 6:24 (grifo meu, NVI)

A parte grifada deixa mais do que clara a vontade de Deus: não há sequer a menor possibilidade de servir a ambos senhores! O último versículo é um dos mais mal interpretados da Bíblia e também é muito usado para embasar ideias de prosperidade:

“Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas.” – Mateus 6:33 (grifo meu, NVI)

Na parte grifada, Jesus fala dessas coisas, ou seja, o que Ele havia acabado de mencionar! Não há carros importados, mansões gigantescas, salários astronômicos ou qualquer tipo de promessa semelhante. Só o básico, o necessário, aquilo que precisamos para viver bem. Leia o texto todo.

Não preciso sequer mencionar a passagem do jovem rico, quando Cristo pede que ele venda todos os seus bens, finalizando com o popular “camelo pelo buraco de uma agulha”. Mais uma vez, embora o contexto nos ensine outras verdades, Cristo se importa em mostrar que as riquezas podem nos afastar de Deus. Uma segunda história está na parábola do rico e Lázaro. Outra oportunidade que Jesus teve para demonstrar a insatisfação com aqueles que vivam de forma luxuosa e impiedosa. Leia aqui e aqui as duas histórias, respectivamente.

Os pregadores da prosperidade financeira distorcem o amor de Cristo e o Seu sacrifício em barganha. É como se Sua morte fosse um cheque em branco para assinarmos na quantia que quisermos. Dou 10 por cento e recebo em troca, pela legalidade. Imagine se der 20, 30, 40 (!) por cento. Não há qualquer tipo de ensinamento bíblico nisso! Para piorar a situação, esses pregadores ensinam que, no caso da barganha não funcionar, a culpa é do contribuinte – sempre foi, é claro. A falta de fé é a causa do não-enriquecimento. A lógica é simples: se você tem fé, recebe, senão, tá ferrado. Dessa forma, as pessoas vivem com um peso que não lhes pertence. Aceitam, lamentavelmente, viver sob um jugo desnecessário.

A essa altura, você pode estar se perguntando: ser rico é pecado, então? A resposta a essa pergunta não é simples, mas eu entendo que ser rico não é pecado, desde que você não ame nem sirva às suas riquezas. O que é muito difícil, devemos ser sinceros. É muito semelhante ao texto que escrevi sobre bebida alcoólica (aqui): é um caminho perigoso. Não entendo que todo o rico está em pecado ou que todo o pobre está agradando a Deus. É possível agradá-Lo em ambas as situações. É muito difícil, no entanto, manter-se fiel a Deus e não servir a dois senhores, quando se tem muitos bens materiais. Vemos que Paulo entendeu muito bem a função dos ricos no Reino de Deus:

“Ordene aos que são ricos no presente mundo que não sejam arrogantes, nem ponham sua esperança na incerteza da riqueza, mas em Deus, que de tudo nos provê ricamente, para a nossa satisfação. Ordene-lhes que pratiquem o bem, sejam ricos em boas obras, generosos e prontos para repartir. Dessa forma, eles acumularão um tesouro para si mesmos, um firme fundamento para a era que há de vir, e assim alcançarão a verdadeira vida.” – 1 Timóteo 6:17-19 (grifo meu, NVI)

Paulo enfatiza que a verdadeira vida é póstuma, um tesouro a ser acumulado. Os ricos devem usar o seu dinheiro para fins de generosidade e doação.

Após tanta exposição de textos e interpretações, qual é a vontade de Deus com relação ao dinheiro, afinal? Parece-me que Deus está muito mais interessado em nossa relação com Ele e com os irmãos, do que com quanto dinheiro temos no banco, qual o tamanho da nossa casa, dos nossos carros, ou com os números em nosso contracheque. Se Ele quiser prosperar, que seja feita Sua vontade. Se não prosperarmos, Ele vai nos sustentar e suprir todas as nossas necessidades. Que aprendamos a viver com muito ou com pouco (Fp 4.12).

Esse tema tem muito a ser discutido. Poderíamos escrever um livro inteiro a respeito do assunto. Espero que esse texto abra sua mente para esse tipo de discussão e interpretação. Aguardo comentários para um bom debate! Finalizo meu texto com uma das ótimas orientações de Paulo a seu discípulo Timóteo:

“De fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar;
por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos. Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram a si mesmas com muitos sofrimentos. Você, porém, homem de Deus, fuja de tudo isso e busque a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e a mansidão.” – 1 Timóteo 6:6-11 (NVI)

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